ENTREVISTAMOS RODRIGO PICCOLO, VOCALISTA DA BANDA “MATO SECO” SOBRE O NOVO SINGLE, BOB MARLEY E MUITO MAIS.

Publicado em Maio 10, 2021
Autor / Fonte: GLAUCO MALTA


ENTREVISTAMOS RODRIGO PICCOLO,  VOCALISTA DA BANDA “MATO SECO” SOBRE O NOVO SINGLE, BOB MARLEY E MUITO MAIS.

Crédito da foto: Glauco Malta

Turbinado: Boa noite Rodrigo, quero agradecer seja muito bem-vindo ao Turbinado.

Eu ouvi e curti demais o single que vocês estão lançando “Carta da Humanidade”, ela foi composta em 2020 mas está sendo lançada agora, fala um pouco sobre esse som prá gente. 

Rodrigo: Essa foi uma canção que nós fizemos no começo dessa loucura toda da pandemia, nós não esperávamos que fosse durar o tanto que está durando, essa que é a verdade, ninguém tinha uma expectativa que fosse durar tanto mas já entendíamos a grandeza de tudo isso que estava se passando naquele momento, principalmente para nós artistas que não podemos mais estar no palco, realmente fomos ceifados do nosso direito de trabalhar “digamos assim”. E aí começou a era das Lives, essa música saiu na primeira Live do Mato Seco (se não me engano) logo no começo da pandemia que a gente fez, foi numa proposta que tínhamos de apresentar uma canção nova a cada Live que nós fizéssemos, durante as Lives nós respeitamos todas as normas e recomendações dos órgãos responsáveis com relação ao distanciamento e com isso as Lives sempre foram com uma formação reduzida da banda, o que obviamente trouxe ao nosso som uma musicalidade diferenciada, pensando nisso fizemos agora uma versão de estúdio com a participação de toda galera da banda para canção “Carta da Humanidade”, juntamente vamos colocar um clipe feito pelo Júnior Imigrante e com a galera especial do QG Hits, com uma bela fotografia.

Diferente do que geralmente o Mato Seco se propõe a fazer, que é sempre fazer uma música positiva, causar um sentimento positivo, uma chama de fé e esperança, de despertar o amor nas pessoas, esta música tem por função despertar uma reflexão nas pessoas, salvo pela própria letra, salvo pelo que será o clipe, que é justamente causar uma reflexão do por que chegamos a esse momento tão importante e tão caótico para a humanidade no auge do nosso progresso, no auge da nossa evolução humana (se é que se pode dizer assim), então essa música vem para tentar despertar em nós esse sentimento de reflexão do quão perigosos nós seres humanos somos e quanta diferença nós fazemos nessa evolução da vida de uma forma geral, não só humana.

Carta da Humanidade vem para dar uma “cutucada” na gente, para nos fazer pensar no que estamos fazendo, hoje em dia todo mundo tem voz (seja positiva ou não) com a globalização da internet, a música vem para incitar essa reflexão.

 

Turbinado: A letra é muito atual, muito forte, fazendo uma reflexão o nosso momento e traçando um paralelo a impressão é de que a humanidade deu errado, por mais que tentemos fazer as coisas certas sempre há quem faça questão de fazer tudo do modo mais difícil e complicado e retrocedemos. Você acha que ainda dá tempo de educarmos e mudarmos o olhar das próximas gerações para que elas tenham perspectivas de um futuro melhor?

Rodrigo: Você falou uma coisa que é engraçada se não fosse trágica e vice-versa, mas assim; o que eu vejo em contrapartida, o que mantém o mínimo de equilíbrio no mundo são muitas pessoas que ainda fazem prevalecer o amor, o bem, a justiça, são essas pessoas que mantem o mínimo de equilíbrio no mundo.

Eu Rodrigo Piccolo, particularmente vejo saída para muitos que pensam dessa forma, que se desprendem um pouco dessa Babilônia, quando eu falo dessa Babilônia eu me refiro a todo o pensamento focado no “Ter”, “Ter Poder”, ”Ter Grana”, “Ter Riqueza’ e não do “Ser”, e isso faz com que as pessoas passem por cima umas das outras, porque a vida se torna uma competição; e uma das saídas é conseguirmos voltar as nossas raízes, que é respeitar a vida.

O que está acontecendo muito hoje em dia é o êxodo urbano, antigamente era o êxodo rural onde o emprego era mais difícil na zona rural, com isso a galera se concentrava nas grandes cidades, hoje as pessoas estão saindo das grandes cidades e deste sistema selvagem e se refugiando “no mato”, nas praias, entendendo que a resposta está na natureza e acredito que essas pessoas estão educando seus filhos com esse olhar respeitoso.

Já ouvi muitas pessoas dizendo que não tem coragem de colocar um filho no mundo nos dias atuais, eu particularmente discordo, precisamos colocar crianças no bem-educadas no mundo para termos essa virada de mesa e virar o jogo, com mais e mais pessoas com pensamentos baseados em caráter, senso de justiça, igualdade, bondade, compaixão, empatia, tolerância e respeito ao próximo, pode ser um pensamento utópico, mas é aí que deposito minhas esperanças.

As pessoas que realmente não se sentem parte e confortáveis com tudo isso das grandes metrópoles, a Babilônia e esse sistema selvagem que ela oferece, então refugie-se, busque um lugar para você, o dinheiro não é tudo, o dinheiro por mais difícil que pareça é um detalhe, quando você gera uma energia, quando você realmente quer conquistar uma vida que seja realmente uma vida e não sobrevivência, nenhum de nós está aqui para sobreviver, essa que é a real.

 

Turbinado: Estamos para completar (infelizmente) 40 anos da morte de Bob Marley, um cara que tem uma representatividade e respeito não só no mundo do Reggae, mas em todos os gêneros musicais; esse cara faz uma baita falta. 

Rodrigo: Com certeza Glauco, vou te falar uma coisa, talvez o mundo não estivesse como está se artistas como Bob estivessem vivos; por exemplo no Brasil, se caras como Cazuza, Raul Seixas, Renato Russo, eles tinham um poder de influência forte sobre outros artistas e com o grande público com suas músicas.

Eu acredito que a arte e a música são transformadoras, são como uma vacina dentro da mente e do coração das pessoas, e o Bob Marley entendeu isso, ele acreditava que realmente poderia curar as pessoas, é o que a gente acredita, então um cara como o Marley faz uma falta tremenda no mundo de hoje.

O poder de influência que ele tinha e o poder de não ser comprado, isso no mundo de hoje é uma riqueza imensurável; como dizia Sabotagem: “O dinheiro não compra a sua postura”, e o dinheiro nunca comprou a postura do Marley, a gente não pode (infelizmente) mudar a história mas o legado que ele deixou foi muito positivo e vemos isso através de sua família, os filhos Ziggy. Damien, Julian e as filhas dele tem um trabalho muito positivo e muito grande em cima do que ele deixou; esse cara faz uma baita falta, de verdade!

 

Turbinado: Com certeza um dos shows que eu adoraria ter assistido era do Bob Marley, mas infelizmente não deu tempo. A galera atualmente parece que ouve Bob Marley, mas não entende a mensagem que ele passa, você concorda?

Rodrigo: Parece que com o passar do tempo o dinheiro de hoje em dia passou a valer mais do que valia na época dele. Ao longo do tempo a arte foi moldada pelo dinheiro, pelo marketing, na época do Marley a galera não se vendia para falar o que eles queriam falar, e já era! Eles entendiam que a arte e a música eram a voz para quem não tem voz para gritar, é por isso que a gente grita bem alto para todo mundo ouvir.

 

Turbinado: Tenho alguns amigos que seguem a religião/filosofia Rastafári, que surgiu lá na década de 30 e ganhou uma maior visibilidade mundo agora na década 70 com os grandes nomes do reggae como Bob Marley. Mas há uma galera que não se preocupou em conhecer a fundo a filosofia e alegam que pregam apenas o uso da maconha; e sabemos que é o contrário, o Rasta prega o amor, a harmonia, a paz. 

Rodrigo: Quero fazer um adendo, mais do que uma religião o Rastafári é uma filosofia e entende que a gente tem que se unir, o homem preto, o homem branco, o homem rico, o homem pobre, a gente tem que se unir em amor.

O Rasta tem a “coisa do ser livre”, o verdadeiro Rasta não julga, e isso para a sociedade hipócrita conservadora que nos colonizou e nos limita até hoje e nos coloca em conflito uns contra os outros pelas diferenças.

O Rasta prega que você pode ser o que você quiser e não julgue o que outro quer ser, você só tem que levar o amor, ser Rasta é amor, ser Rasta é ser luz na escuridão, ser Rasta é ser um auxílio, é ser a mão estendida.

O Rasta por ser quem você é as vezes assusta, e o que te assusta te faz ter repúdio de certa forma, então poucas pessoas pararam para ouvir o que o Rasta tem prá dizer, e todos aqueles que pararam para ouvir reverenciaram o Rasta, porque o Rasta está dentro de cada um, quando a gente fala “Jah Rastafári” a gente está falando de um Deus vivo, um Deus vivo que sou eu, que é você Glauco e que somos todos nós.

Foi criada toda uma mística em volta do Rastafári como se fosse uma seita, uma religião, uma filosofia fechada; quando na verdade o Rasta é aberto para todo mundo, o Rasta permite que você seja budista, evangélico, umbandista ou um ateu de religiões, mas que acredita no poder da natureza; eu já vi muita gente ateia que é Rasta porque a atitude dele é muito mais nobre do que aquele que se dedica a uma igreja há muitos anos, o Rasta busca essa nobreza e a pureza que é a essência daquilo que fomos feitos: o amor, a luz e a bondade.

Mas como Marley profetizou, o Rasta, o reggae só vai crescer, o reggae está chegando cada vez mais nas TV’s e grandes mídias, e juntando tudo isso com a sua pergunta anterior, isso me dá esperança.

 

Turbinado: Eu acompanho a banda já há algum tempo pelas redes sociais, e uma coisa que desde a primeira audição que me chamou a atenção foi que além das mensagens de amor e união vocês nunca tiveram o medo de meter o dedo na ferida com letras extremamente politizadas e inteligentes, como por exemplo duas obras primas “Interesses Caros” e “Pedras Pesadas”.

Tive tive a oportunidade de cobrir dois shows da banda em 2018 no Bar Opinião em Porto Alegre, foram grandes apresentações.   

Rodrigo: Que legal, muito obrigado Glauco, fico feliz em saber que compartilhamos esses momentos; estamos com saudades de voltar a Porto Alegre e de tocar no Bar Opinião.

Quando o Mato decidiu fazer música própria, nós tínhamos vontade de expressar o que nós já éramos desde adolescentes, as músicas de protesto sempre pegaram muito a gente, embora sejamos de São Caetano, somos privilegiados por termos nascido aqui, mas vivemos muito perto daqueles que estão à margem da sociedade, nós andamos muito pelos guetos aqui perto, a Zona Leste está aqui pertinho em São Paulo, nós transitamos muito neste mundo, então a música de protesto sempre esteve muito presente conosco com Rap e o Rock “n” Roll.

Quando a gente teve a ideia de se juntar para fazer música autoral a nossa escola foi a música jamaicana, a gente já ouvia dentro do reggae nacional Edson Gomes, Tribo de Jah, que já eram bandas que já faziam reggae e colocavam o dedo na ferida, a Tribo conseguiu fazer um trabalho mais popular (digamos assim) em alguns momentos, mas o Edson sempre foi um cara que colocava o dedo na ferida demais e nós achávamos aquilo incrível. Nós transportamos isso para o som que nós queríamos conhecer, que era o som da Jamaica, então mergulhamos o reggae de verdade, e automaticamente entendemos que era a música dos oprimidos e de lamento.

Naturalmente aquilo se juntou a tudo aquilo que vinha nos alimentando na adolescência, e entendemos que tínhamos que falar o que não está sendo falado no reggae, alguns artistas do reggae nacional mandavam algumas mensagens, mas a maioria estava virando som de praia, estava virando mais “surf music” do que reggae, essa era a nossa visão e não era o direcionamento que queríamos para a banda.

Nós sempre gostamos de músicas que causassem uma reflexão, uma transformação, e pensando nisso as composições vieram de uma forma muito natural, a gente sempre entendeu que a música era um mecanismo muito importante de transformação, então o que tínhamos de fazer com a nossa música era somar na vida de cada pessoa que ouvisse nosso som, e as ideias sempre tiveram de ser construtivas, uma lição para nós mesmos e para o público, a música tem de ser educadora e causar reflexão.

Temos o máximo respeito pela galera faz música de amor, muita gente diz que o Mato tem de fazer música de amor, TODAS as músicas do Mato são de amor, a base é sempre de amor, acreditamos que já tem muita gente boa fazendo música de amor, então a gente se vê necessário de falar do amor assim como a gente fala, e quanto mais falarmos deste tipo de amor mais a gente vai derrubar o ódio.

Nós vimos muita gente da nossa vila sofrer com violência policial, muita gente crescendo na miséria, abandono do governo, abandono dos poderosos, abandono dos brancos, abandono dos ricos, uma parada pesada que a gente sempre viu isso cara; seria até injusto com nós mesmos não abraçarmos isso com a nossa música, que é algo que está nas nossas mãos e que é algo que a gente sabe fazer e a gente entende o poder transformador.

 

Turbinado: Gostaria de falar com você a canção “Filhos da Quarentena”, que som F@#%, que baita parceria legal com o João Suplicy, como rolou esse encontro musical? 

Rodrigo: Muito obrigado cara, realmente é um som muito especial, a letra quase que inteira é do João; foi assim, o Mato Seco ía tocar em Brasília e nós nos encontramos no aeroporto e o João colou com a gente lá e rolou uma baita sinergia no palco, desse encontro começou a fortalecer uma amizade e aí quando começou a quarentena o João postou essa música no formato voz e violão no Instagram dele, e aí eu comentei dessa música e ele perguntou se eu havia curtido e perguntou se a gente gostaria de fazer pois ele não tinha um Roots, Rock, Reggae na pegada do Mato Seco, e era justamente o que ele queria. Eu acrescentei um final na letra, embora eu não quisesse mexer, mas ele disse para eu fazer algo que fica legal e tudo fluiu legal demais.

Fizemos tudo a distância respeitando a quarentena, realmente quarentenados mesmo, foi a primeira música do Mato que gravamos totalmente separados aqui no estúdio do “Homens do Mato”, o João enviou o vocal que ele gravou pelo celular, cada dia vinha um membro da banda para gravar a sua parte em separado.

Fizemos o clipe também de forma separada, através de contatos que temos de pessoas ao redor do mundo que conhecemos, pegamos as imagens dessa galera e fizemos o vídeo baseados nessa coisa da quarentena e da pandemia está sendo real para todo mundo cara, e agora? O que a gente vai fazer a partir daqui?

Isso é uma lição para todo mundo, não é para pobre, para rico, para brasileiro, para americano, foi isso que a gente tentou expressar no clipe.

O resultado final foi muito além de qualquer expectativa nossa de como a música ficou, o João gostou muito da música e também as pessoas aonde a música está chegando, e nesse caso tem o lance da mensagem da música causar a reflexão positiva, pegar tudo isso como lição e tentar mudar o que der para mudar, e o melhor jeito é a gente se dar como espelho, como exemplo.

 

Turbinado: Rodrigo eu quero agradecer de coração o nosso bate papo, e dizer para você e toda a banda que podem sempre contar comigo e com o Site Turbinado, aproveita e deixa uma mensagem para a galera.

Grande abraço, Gratidão!!! 

Rodrigo: A mensagem é “Amor e Resistência”, sempre, sempre!!!

Eu acho que neste momento difícil que estamos vivendo hoje nós temos ferramentas poderosas que dão voz a todos nós, que nós usemos o nosso amor e a nossa resistência para nos manifestarmos cada vez mais contra tudo que está errado, se manifestar com consciência e com empatia, entendendo que aqui somos todos crianças, somos todos aprendizes que aprendemos uns com os outros, mas o mais importante é sempre levar o amor à frente de tudo que a gente está fazendo, e a esperança de que dias melhores virão, e que essa esperança que ela não venha do esperar, que ela venha do esperançar que quer dizer para a gente se mexer, fazer acontecer.

Quero pedir que as pessoas se cuidem de verdade, ao sair de casa, porque ainda há muitas pessoas morrendo por descaso, principalmente por descaso daqueles que nos governam, de pessoas que estão lá dentro e que estão só olhando para si próprio, enquanto isso o povo está morrendo.

Muita gente diz que o povo brasileiro não gosta de política e é a verdade, brasileiro não gosta de política, mas brasileiro gosta de político, e isso é um perigo.

Que o povo tenha a consciência de buscar a educação, a arte, a cultura, o esporte, principalmente neste momento que as coisas irão começar a voltar ao normal e entender que, estes são os pilares para melhorar a nossa sociedade, valorizar o que é de bom vai sempre levar o amor e a resistência adiante sempre, estamos na luta pelo bem.

 

 

Pré Save: https://ps.onerpm.com/2660088543 

 

Link Videoclipe: 

Mato Seco nas Redes Sociais:

 Facebook: https://www.facebook.com/matosecoficial/               

Instagram: https://www.instagram.com/matosecoficial/               

Youtube: https://www.youtube.com/user/producaomatoseco       

Site: https://www.matoseco.com.br/

 

Link Videoclipe:

MATO SECO

:CARTA DA HUMANIDADE (FOMOS LONGE DEMAIS)




Mais Fotos