“BRASIL (o disco) AINDA MAIS RELEVANTE HOJE DO QUE A 30 ANOS ATRÁS” - ENTREVISTA COM BOKA DO RATOS DE PORÃO

Publicado em Abril 06, 2019
Autor / Fonte: GLAUCO MALTA


“BRASIL (o disco) AINDA MAIS RELEVANTE HOJE DO QUE A 30 ANOS ATRÁS” - ENTREVISTA COM BOKA DO RATOS DE PORÃO

Crédito da Foto: GLAUCO MALTA

 

A banda RATOS DE PORÃO está prestes a retornar para Porto Alegre com a turne comemorativa dos 30 anos de lançamento do disco BRASIL, o Site Turbinado entrevistou o baterista BOKA esta semana, confiram abaixo a íntegra da entrevista.

 

"AS LETRAS (DO DISCO BRASIL) SÃO ATÉ MAIS RELEVANTES HOJE DO QUE FORAM HÁ 30 ANOS ATRÁS"

 

Turbinado - O RATOS DE PORÃO está na estrada há 39 anos, você comandando as baquetas já são 28 anos de banda; vocês acreditavam estar na ativa firmes e fortes após todo esse tempo? A que se deve esta longevidade?

Boka - Na verdade nunca paramos muito pra pensar no tempo que vamos seguir com a banda ou a hora de parar. Enquanto for bom e tivermos saúde pra isso, a banda continuará naturalmente, sem forçar a barra.

 

Turbinado - Vocês estão fazendo vários shows com a turnê comemorativa dos 30 anos de lançamento do álbum “BRASIL”, que em minha opinião é um divisor de águas na história do R.D.P., é considerado por muitos fãs e pelos críticos como a grande obra prima da banda, você concorda?

Boka - Com certeza, inclusive eu virei mesmo fã de carteirinha da banda quando este play saiu, que é um clássico incontestável, hino de um a geração.

 

Turbinado - O álbum BRASIL apresentou em suas letras a realidade nua e crua do país em 1989 e cravou alguns dos grandes clássicos da história do R.D.P. que não podem faltar nos shows, como “Beber Até Morrer”, “Aids, Pop, Repressão”. É impressionante como as letras do disco soam tão atuais e parece que foram inspiradas na situação atual do país. O que você acha disso? Houve um retrocesso cultural no país nestas três décadas?

Boka - Estes dias durante o ensaio comentamos que muitas letras são até mais relevantes hoje do que foram há 30 anos atrás; seguramente vivemos num retrocesso atualmente. É simplesmente inacreditável que certas situações até pioraram nas últimas 3 décadas, mas o sistema que vivemos é o mesmo, enquanto ele perdurar os problemas serão os mesmo em diferente escala, mas só terminarão ou mudarão com uma mudança de sistema por via revolucionária.

 

Turbinado - Durante todos esses anos a banda nunca tirou o pé do acelerador (musicalmente falando), sempre direto e reto em suas composições. A pegada forte do punk rock hardcore no início, posteriormente houve um período fortemente influenciado pelo thrash metal onde alguns fãs mais radicais “torceram o nariz”. Acho que uma das características do Ratos foi sempre fazer o som que quis sem concessões a quem quer que seja. Você acha que essa liberdade de criação é a mola propulsora da banda?

Boka - Todas as vezes que a gente faz um disco novo, este som é um reflexo das novas e antigas influências de todos nós, as que moldaram nosso estilo musical e as que o aperfeiçoam ou o refinam, podemos dizer que os discos soam diferentes, mas sempre é reconhecível ser R.D.P. pra quem acompanha banda. Como não compomos muito seguido, isto ajuda a manter uma qualidade e relevância sonora na discografia.

 

Turbinado - O nosso país nas últimas décadas promoveu grandes festivais de rock, mas em nenhum deles foi dado o devido espaço aos grandes nomes do metal / hardcore / thrash metal / hard rock nacional; falo de bandas seminais como vocês, Korzus, Distraught, Attomica, Inocentes, Olho Seco, Sarcófago, Rebaelliun, Made In Brazil, Dorsal Atlântica, Golpe de Estado, Cólera, Garotos Podres, Os Replicantes,  e muitas outras que cravaram seus nomes na história com muita luta e suor; algumas com reconhecimento internacional. Essa galera tem um legado e uma história de muita luta na cena nacional. Por que os grandes festivais nunca abriram as portas para as bandas acima citadas? Você não acha que há uma dívida histórica por parte dos organizadores por nunca valorizarem a obra e importância de todas essas bandas?

Boka - Acho que há uma confusão e incompreensão quando se fala de festivais para muita gente, as pessoas tem que entender que o line up de um evento é puro e simples negócio, salvo raríssimas exceções, isso não tem nada a ver com reconhecimento e quem organiza um festival contrata quem acha que deve contratar por razão x ou y. Não acredito que participar de festivais seja reconhecimento ou merecimento para nada, principalmente em festivais aqui do Brasil, onde em geral o Rock é um estilo de música elitizado, no sentido que não é um estilo muito popular dentro do cenário nacional.

 

Turbinado - Uma pergunta que sempre gosto de fazer aos entrevistados é sobre essa era totalmente digital em que vivemos, a tecnologia afetou diretamente o mercado musical de uma forma irreversível, e consequentemente os artistas. Em sua opinião, para quem tenta viver de música a tecnologia mais ajuda ou atrapalha?

Boka - A tecnologia está mudando amplamente todas as relações sociais, não somente a maneira de se ouvir música, é um tempo de transformação. Ainda existem pessoas que gostam de comprar discos ou tentam pagar algo pela música das bandas em apoio, mas acredito que este público diminui gradativamente. Não posso dizer que atrapalha, porque é um caminho sem volta, não dá pra querer que as pessoas se correspondessem por carta ou falassem só por telefone até o fim dos dias entende? As vendas são menores, porém há outros meios de viabilizar as coisas; hoje por exemplo é muito mais fácil organizar uma tour do que a 25 anos atrás.

 

Turbinado - Você acompanha o cena independente atual? Quais bandas você acredita serem promissoras e quais você indica para a galera ficar de olho?

Boka - Eu sempre vejo as coisas sim. Por aqui tem muitas bandas legais que as vezes nem são tão novas, mas são as que estão fazendo coisas legais, posso citar algumas como; SURRA, DEAF KIDS, TEST, VINGADOR, FACADA, RAKTA, DESALMADO, etc...

 

Turbinado - Há alguma previsão de material novo do R.D.P. para um futuro próximo após a turnê do Brasil?  E por falar em músicas novas, quem é o mais perfeccionista durante a gravação de um disco no estúdio?

Boka - Talvez seja eu o mais perfeccionista. Sim temos falado sobre o tema ultimamente, talvez comecemos a compor em breve.

 

Turbinado - Quero agradecer pelo seu tempo e atenção para com o Turbinado concedendo esta entrevista, gostaria de finalizar perguntando; o R.D.P. tem quase quarenta anos de existência e ao longo destes anos construiu uma discografia repleta de clássicos que não deve nada a banda gringa nenhuma, fizeram um documentário, várias turnês no exterior e tem uma legião de fãs dentro e fora do Brasil; há alguma meta ainda não realizada por vocês?

Boka - Acho que a meta é conseguir a continuação de fazer o que a gente ama, que é tocar ao vivo e fazer discos. Agradeço o espaço e o apoio de todas pessoas que nos seguem nas últimas 3 décadas.

 

Nosso agradecimento ao BOKA pela entrevista, ao Rei Magro Produções e a Érica pelo apoio.

 

O RATOS DE PORÃO se apresenta no Bar Opinião no próximo dia 28 de Abril

Os ingressos estão a venda no link: http://opiniao.com.br/#!/eventos/ratos-de-porao-2



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